12.12.08

às seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor.
Choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
agora às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.


Marina Colasanti (?)

14.11.08

A função do nariz

Antes de dormir, é hora da historinha. "Mamãe, conta historinha do porquinho e do lobo e da vovózinha?" Porque como o lobo mau é um só, ela quer logo tudo de uma vez. Mas já é melhor do que quando ela pedia a história "do gato e do cachorro e do macaco e do passarinho e do lobo e do tigre e do leão...". E minha saída era sempre um animal passeando na floresta, em direção a algum lugar definido, e aí no caminho ia encontrando os outros animais e formando uma caravana rolidai. As habilidades que você não desenvolve quando vira mãe, esquece, porque não vai desenvolver nunca mais. ;)

Mas a historinha de hoje foi da chapeuzinho vermelho. Eu amo, amo, amo, AMO quando ela sobe a voz na segunda parte da música (maaaaaaaaas à tardinha..., com o "a" do mas lá em cima). Canto a música várias vezes durante a história só pra ouvir ela cantar também. E hoje, quando a chapeuzinho chegou na casa da vovó e encontrou o lobo na cama, começou o diálogo. Eu, fazendo voz fina de chapeuzinho. Ela, fazendo voz grossa de lobo, o que por si só já é suficientemente mordível.

- Pra que essa orelha tão grande, vovózinha?
- É para ouvir!

- E pra que esse nariz tão grande?
- É para... fazer meleca!!

13.10.08

Viajar. Praia deserta. Nadar no mar. Peixinhos na água. Caminhadas na areia. Passeio de barco. Água de coco. Caçar sirizinhos de noite. Sol, sol, sol. Luas e estrelas. Muitas, muitas estrelas. Balanço da rede. Peixe-boi. Olhar pela janela do avião. Piscina à noite. Andar nas pedras. Brincar de massinha. Correr na grama. Dançar rock 'n roll com a Nanda. Soltar a língua. Matar saudades.



De volta pra casa. Passeio no Jardim Botânico. Platinhas, passarinhos, tartarugas, borboletas, balanço, pedrinhas na água, areia, picolé. Almoço no restaurante. Brownie de sobremesa comido com canudo. TV Ratimbum com pipoca. Papel, cola e revistas rasgadas. Brincadeiras com os vizinhos. Bola, esconde-esconde, roda, bolinha de sabão. Aprender a pedalar sozinha. Correr até cansar. Se arrastar no chão até ficar imunda. Teatro. A gatinha, a galinha, o burro e o cachorro. Jumento não é, jumento não é, o grande malandro da praça. Lanche na casa do vovô. Caderno e lápis cera. Brigadeiro. Olhinhos brilhando de felicidade.

Às vezes eu lembro que é possível ser feliz.

E tudo que eu mais quero na vida é encher a sua de dias assim.

12.10.08

Estou tomando uma surra.
- Joana, tira o braço de dentro do prato.
- Não é o braço, é o co-to-ve-lo.

- Joana, não coloca a mão dentro do copo.
- Não é a mão, é o dedo!

E confesso que é humilhante.

8.10.08

- Olha, Joana, vai ter festa de aniversário do Fulaninho, que legal!
- Ele não é amigo.
- Por que???
- Porque ele é bobo. Ele é flamengo.

7.10.08

Tô sumida, né? Mas é que estávamos ocupadas demais posando como "pontinhos na areia" em cenários de cartão postal...

9.9.08

Não posso negar que me empolgo com festas de aniversário infantis. Não precisa ser nada grandioso, mas tem que ter comemoração. Não me conformo com aniversário de criança que não tem nem um "bolinho" (piadinha interna). Felizmente, Joana parece seguir pelo mesmo caminho. Eu nem comentei aqui na época, mas ela curtiu tanto o aniversário de dois anos que as comemorações poderiam durar meses e ainda seria pouco. Este ano eu relutei um pouco em comemorar, porque não tinha clima nenhum pra isso. Mas mudei de idéia por n razões e a principal é que não me sentiria bem em privar minha filha de algo que ela já demonstra gostar tanto. E, vendo a felicidade dela com o bolo e o parabéns, não me arrependi. E, mesmo com a tristeza (que não foi pouca) por minha mãe não estar presente em mais um momento tão importante, tenho certeza que ela, que era ainda mais festeira que eu, apoiaria nossa decisão. Mas, ainda assim, tentei fazer das comemorações um momento feliz e memorável, mas simples e tranquilo. Acho que consegui.

Foram duas festinhas. A da escola, que é na própria sala de aula, com os amigos da turma, na hora do lanche. E outra no fim de semana, no Jardim Botânico. Uma do Pooh (quando foi que pararam de traduzir os nomes dos personagens infantis?) e outra dos Backyardigans. Em casa, no dia do aniversário, apenas cantamos parabéns com a vela num brigadeiro. Registre-se que a mini-vela teve que aguentar sete parabéns.

E pensam que ela se deu por satisfeita? Na segunda-feira seguinte à festa do JB me perguntou: "mamãe, não vai ter festa do barney?"

Sem falar que ela adora assistir o dvd da festa de 1 ano e agora me agradece pela festa! Toda vez que acaba de assistir ela fala: "mamãe, obrigada você fez a festa do palhaço. Obrigada você fez o bolo do palhaço pra mim." :-)

E ela já começou a planejar a festa de 3 anos... mas isso é assunto pra outro post.

4.9.08

E agora ela resolveu entender de moda e separa as roupas em categorias: de passear, de dormir, de comer. Admito que tenho minha parcela de culpa, porque eu faço essas diferenciações, por exemplo, normalmente separo as blusas mais chuézinhas e velhas pra hora do almoço/jantar, já que as chances de sair tudo sujo de feijão é grande. E esqueço que criança observa e aprende tudo...

Mas ela resolveu mesmo ser auto-suficiente na matéria e criou suas próprias categorias. Que já existiam pros sapatos. E, com isso, quer escolher as próprias roupas, dá palpite no que eu escolho, se recusa a colocar a blusa tal pra ir na pracinha porque é roupa de dormir, não aceita usar o chinelo da natação pra nenhuma outra coisa, etc. E hoje não quis vestir o short que eu separei porque, vejam só, era "muuuuito feio". Mas a melhor de todas ainda foi o dia que eu separei pra ela usar numa festa um vestido que ela tinha usado há pouco tempo, em outra festinha:

- Não, mamãe! Esse é da festa do Rafa!

Agora me diga de onde ela tirou que não pode mais repetir roupa? Já pensou no preju?

Mas o melhor de tudo em relação às roupas é a insistência em fazer tudo sozinha. Muitas vezes ela pede ajuda, em outras não se opõe a que eu tome a iniciativa de arrumá-la. Mas tem dias que ela é que tem que fazer tudo SO-ZI-NHA. Vo-cê não, mamãe!! E ai de mim se resolver atrapalhar...

E confesso que quase chorei de emoção no dia em que, pela primeira vez, ela vestiu não uma peça ou outra, como já fazia, mas o uniforme todinho sozinha. Calcinha, short, camisa, meia e sapato. E um arco no cabelo, pra arrematar.

O sentimento? É uma mistura do famoso "tornar-se desnecessária" com a felicidade de ver que, apesar de errar muito, devo estar no caminho certo...
É do meu jeito ou de jeito nenhum

O rádio do quarto no volume máximo. Tão alto, mas tão alto, que o som fica até distorcido, nem dá pra escutar direito. E ela quase dentro do rádio. Eu peço pra diminuir, que está alto demais, que faz dodói no ouvido, blábláblá. Ela diz que é bom alto. Eu falo tudo novamente e diminuo o rádio. Ela diz que quer "muuuuito alto, não qué pouquinho não." E aumenta. Eu explico que a gente pode ouvir música alto, mas nem tanto. Depois de um tempo, sentindo que íamos ficar nessa a tarde toda, dou logo o ultimato: se não diminuir o rádio, vou desligar. Pode escolher entre escutar num volume razoável (não usei essa palavra) ou não escutar nada. A resposta?

- Pode desligar.

8.8.08

A Joana acha que a televisão existe exclusivamente para passar desenhos, ratimbum e o dvd da festa de 1 ano. É isso ou a televisão desligada. Ela nem está muito errada porque, afinal, é só isso mesmo que passa quando ela está acordada. Isso e futebol. Mas tente assistir um jogo inteiro com ela do lado dizendo que não quer ver "gol".

Modos que assistir à abertura das Olimpíadas não foi lá muito fácil. Não consegui ver tudo, mas posso dizer que amei tudo que vi. Ficou meio "não tenho tudo que amo...", né? hohoho Juro que não foi a intenção. Mas enfim. Quando ela desistiu de pedir pra trocar por Ratimbum, resolveu prestar atenção na cerimônia. E foi aí que eu não consegui prestar mais atenção em nada.

O que é isso mamãe? O que ele tá tocando? Não é piano não. É a moça, mamãe? É o moço, mamãe? E isso? O que é isso, mamãe? Olha a menina! Que boitinha. Ela tá de "vetido", mamãe? Eu não tô de "vetido", mamãe! Ela é quiança? Eu sou quiança! Olha ôta moça! Ficou azul! Vermelho! Verde! Amarelo! Não qué não, mamãe. Qué ratimbum. Quem é, mamãe? E esse? E esse? E esse, quem é? É moço? E esse? E esse? E esse?...

(mamãe pensando: Joana, você quer MESMO que eu responda quem é cada chinês, UM por UM?)

2.8.08

I'm a barbie girl

Joana na pracinha, passa uma senhora acompanhada do seu cachorro miudinho, peludinho, bem estilo Lulu. As duas começam a conversar.
- Olha o gatinho!
- É um cachorrinho.
- É?
- É! Um au-au!
- Parece mais um gato.


E se eu ainda tinha alguma dúvida de que a fase "bebê" definitivamente já passou, não tenho mais desde o dia em que ela, se recusando a colocar uma fralda pra sair (em casa, na escola e para passeios de curta distância não usa mais, mas para passeios de longa duração eu ainda não arrisco), me disse:
- Eu não sou bebê não, mamãe.
- Ah, não? É o que, então?
- Sou QUIANÇA!

Pela primeira vez, sinto uma pontinha de saudades do meu bebezinho. É, porque hoje meu bebezinho disse que era a Barbie, que tal? E ainda completou: "você também é barbie, mamãe?" hohoho

Aliás, bebezinho não. Quiança, né? E lá vamos nós. Rumo a uma nova fase. Que, com certeza, será ainda melhor e mais fascinante. Aliás, já está sendo. Melhor, mais fascinante, mais contagiante, mais animadora, mais tudo. E, em certo sentido, bem mais difícil também, é bom que se diga. ;)

25.7.08

Não tem jeito, né? Não tem galinha que consiga manter os pintinhos debaixo da asa a vida inteira. Os filhos ganham o mundo, os amigos influenciam, e engana-se quem acha que isso só acontece lá na adolescência...

Um belo dia sua filha de 2 anos chega em casa com os olhinhos brilhando contando que viu um dvd novo. E solta a revelação, empolgadíssima, sem nem dar tempo da pobre mãe puxar uma cadeira pra receber a notícia sentada: a Xuxa, mamãe!!

A gente cria os filhos com tanto carinho... tsc, tsc, tsc

24.7.08

A gente vai contra a corrente, até não poder resistir, na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir...

Acho tão engraçado quando vejo mulheres sonhando com "dia de noiva", "dia de princesa", coisas do tipo. Enquanto eu sonho mesmo é com um "dia de homem", isso sim.

A gente que ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá... laiá-laiá...

21.7.08

O melhor de ter uma pequena tagarelinha em casa, além de não precisar mais de rádio já que agora tenho shows ao vivo todo dia, e além das conversas que, para meu espanto, a gente já consegue ter, e além das perguntas maravilhosas que ela faz querendo saber o que é tudo nesse mundo (que isso mamãe? e isso? e isso? e isso? e não para NUNCA), ok, já deu pra perceber que não é exatamente o melhor mas com certeza é a coisa mais fofa: acompanhar o raciocínio dela para fazer as concordâncias de gênero e número. Tipo chamar a boneca moranguinho de a moranguinha.
Ou quando a gente fala pra ela fazer alguma coisa e ela responde: "eu já fazeu". Os exemplos são inúmeros, e hoje ela me saiu com o melhor de todos: "mamãe, o tigre e o urso caius".

Como ela não está toda roxa de tanto apertão, é um mistério...

16.7.08

Eu só consigo postar de madrugada, e aí é complicado porque é a hora em que os fantasmas estão soltos pela casa. Fica difícil conseguir escrever alguma coisa mais animada e não é também pra ninguém pensar que estou à beira do precipício. Bem, eu acho que estou mesmo, mas não tô parada olhando pra ele, e acho que isso deve fazer alguma diferença. Mas por mais que a vida tenha voltado ao normal - ou, pelo menos, à normalidade possível - a verdade é que é muito mais difícil do que a gente imagina. Mas muito muito, tipo infinitamente mesmo. E se você quer saber de onde eu tiro forças para levantar da cama todo dia, eu poderia dizer que é porque a Joana, quando acorda, tira a fralda e avisa que quer fazer xixi e eu tenho que levá-la pro banheiro correndo. Mas no fundo não é por isso. É porque antes do aviso do xixi ela canta. É, ela acorda cantando, uma antiga música do balão mágico. É a primeira coisa que eu escuto todo dia. Ela cantando sooou feliiiiiiiiz, por isso estou aquiiiii. E assim, aos 34 anos, eu estou vivendo a experiência inédita de acordar de bom humor.


a melhor parte da festa

9.7.08

Eu tive esse sonho ruim, em que o meu maior medo se tornava realidade. Um pesadelo, pra ser mais exata. Daqueles que fazem a gente acordar chorando, angustiada, no meio da noite. E, ao acordar, por uma fração de segundo, veio a constatação: era só um sonho! Respirei aliviada por um momento e quando já estava quase parando de tremer, pensando, ainda meio adormecida, que dali a poucas horas ia amanhecer, eu ia levantar e tudo voltaria ao normal, como era antes, aí, nesse exato segundo é que despertei de verdade e me dei conta. Que, na vida real, esse pesadelo já tinha acontecido. E era verdade.

Esse sim é o maior pesadelo de todos. Quando a realidade consegue ser pior que os sonhos ruins.

E na vida real a gente não acorda e percebe que foi só um sonho. Porque não é só. E não é um sonho. E não adianta esperar o sol para tudo voltar a ser como antes. Porque não vai voltar. Nunca mais.

Nunca mais.
Nunca mais.
Nunca mais.

3.7.08

Alegria, alegria
ou
2 anos essa noite


Se eu não te amasse tanto assim



Talvez perdesse os sonhos



dentro de mim



Firmes (nem tanto) e fortes (um pouco).
Mas estamos de volta.
Bem-vindos.
 

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